Um longo caminho para estudar: o desafio da educação rural no Brasil

Um longo caminho para estudar: o desafio da educação rural no Brasil
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Embora suas aulas comecem apenas depois do meio-dia, antes das 10 horas da manhã o pequeno Gustavo Vitor, de 7 anos, já se prepara para almoçar. Ou quase almoçar. A refeição adaptada por sua mãe, Rosimara de Carvalho Guimarães, inclui carne moída e ovos, “alguma coisa de sal”, como ela mesma define. “Ele come um pouquinho, mas não o ideal para uma criança que teria que comer no horário certo”, relata a mãe. A rotina de gente grande foi a saída que ela e o marido, Douglas Eunicio Guimarães, encontraram para conciliar o trabalho na produção de leite com os estudos do filho mais velho depois que a escola da comunidade de Valo Novo, em São João del Rei (MG), foi fechada, em 2019. “Foi o ano em que ele nasceu. A escola fechou no comecinho do ano, em janeiro, e ele nasceu em agosto. Aí eu falava: ‘Nossa, o meu filho nascendo e a escola fechando’”, recorda a produtora. A situação que a família Guimarães tem vivido é cada vez mais comum no Brasil – e reflete um problema estrutural na educação rural. De acordo com o Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Brasil fechou 110.758 turmas de alunos no campo entre os anos de 2000 e 2024. A maior parte dessas turmas era de educação básica, que atendem crianças dos quatro aos 12 anos. Douglas e Rosímara Guimarães com os filhos Gustavo e Cecília: almoço às 10h da manhã para o filho mais velho poder ir na escola Thiago de Jesus A diretora-presidente da ONG Roda Educativa, Tereza Perez, explica que o fato de o número do Inep contabilizar as turmas fechadas, e não necessariamente escolas, reflete a vulnerabilidade dessas salas de aula no campo. “Isso quer dizer que essas turmas não têm um código próprio no Ministério da Educação”, afirma a educadora, lembrando que as estruturas rurais estão vinculadas a outras urbanas. Segundo ela, isso tem efeitos administrativos, dado que os recursos públicos são enviados para a escola-sede na cidade antes de chegar ao campo. O Censo do Inep de 2025 identificou 178.766 escolas de educação básica no país, entre instituições públicas e privadas. Desse total, 128.037 estão em áreas urbanas. As unidades rurais somam 50.729. Também há 3.709 escolas indígenas e 2.736 unidades em comunidades quilombolas. No caso de Valo Novo, a Escola Municipal Mato Grosso, como era chamada, atendia crianças até o 5º ano e tinha inscrição própria. Apesar das inúmeras tratativas para evitar o seu fechamento, até hoje a comunidade não recebeu uma explicação. “Não sabemos sequer onde é que está o registro dessa justificativa”, diz a professora Aline Angelo, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ). Escolas fechadas, trajetos maiores A desativação de unidades no campo “é um fenômeno com muitas causas e, infelizmente, muito recorrente no nosso país”, lamenta Mônica Castagna Molina, professora associada da Universidade de Brasília (UnB). Pós-doutora em educação, ela acompanha o tema há mais de 25 anos e aponta inúmeras consequências desse processo. “A mais grave delas é a própria perda do direito à educação dos sujeitos do campo ou a sua realização de uma maneira extremamente precária”, afirma. Sem opção, as crianças de Valo Novo precisam viajar de quatro a cinco horas por dia para ir e voltar da escola mais próxima, localizada a mais de 50 quilômetros de distância, em um deslocamento por estrada de terra. Vans da prefeitura fazem o transporte, e não são raros os imprevistos, o que amplia o cansaço de Gustavo. “Na época de chuva, é pior, porque a estrada fica muito ruim”, conta Rosimara, a mãe. Os relatos de problemas são muitos. Eles incluem alergias provocadas pela poeira nos dias mais secos e também casos de infecção urinária decorrentes da falta de acesso a banheiro durante a viagem. “Registramos muitas faltas. São crianças cansadas, e criança cansada não aprende. Nós temos estudantes no 5º ano que ainda não são alfabetizados”, cita o presidente da Associação de Agricultura Familiar da Comunidade Rural do Valo Novo, Isaac Ribeiro. Educação em falta: o problema é nacional, mas existem soluções Thiago de Jesus Ex-aluno da escola fechada em 2019, ele é mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e luta pela reabertura da instituição, na qual se alfabetizou. “Perdemos a identidade e o ponto de encontro e de referência que é a escola. É lá que fincamos o pé no chão e criamos raízes”, comenta o líder comunitário. A distância e a dificuldade de acesso à estrutura na cidade também limitam a participação dos pais. Rosimara tenta acompanhar a vida escolar de Gustavo o máximo que pode e reconhece que nem sempre consegue estar presente nas atividades escolares do filho. “Às vezes tem festa com as famílias, mas eu não consigo ir”, relata. Mônica Molina, da UnB, ressalta o papel comunitário das instituições de ensino. “O fechamento de escolas acaba levando também ao fim de muitas comunidades”, opina. Leia também Educação em falta: o fechamento de escolas rurais é destaque na Globo Rural de agosto Projeto incentiva protagonismo jovem e fortalece permanência no campo Cooperativa mirim promove empreendedorismo para crianças e adolescentes Durante as eleições de 2024, o fato de a unidade de Valo Novo estar fechada quase impediu as pessoas de votarem. “É um impacto muito grande. Quase deixamos de exercer a cidadania porque o colégio eleitoral ficava na escola”, recorda Isaac, dizendo que o voto só foi possível com a instalação da urna de votação na igreja ao lado. Em um artigo publicado em 2022, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) já alertava para o desaparecimento de escolas rurais no país. De acordo com o estudo, que analisa dados de 2002 a 2019, o encerramento de atividades nessas instituições supera os índices de êxodo rural dessas regiões, o que cria um déficit de vagas nas áreas rurais. Ainda segundo o Ipea, os municípios em que houve fechamento de unidades relataram o alto custo de manutenção dessas escolas como empecilho para manter as atividades. Com menos alunos e índices educacionais piores do que a média, as escolas do campo tornam-se, muitas vezes, o primeiro alvo de cortes no orçamento do município. “O critério que o gestor educacional usa para decidir é sempre a relação custo-benefício. Eles querem pagar menos e conseguir atender mais. Mas essa não é a lógica que organiza a vida nos territórios dos povos tradicionais, indígenas e camponeses”, afirma o professor Salomão Hage, da Universidade Federal do Pará (UFPA), que coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo, das Águas e das Florestas nas Amazônias (Geperuaz). Dados sobre a desigualdade escolar no Brasil Globo Rural Ele denuncia uma “visão urbanocêntrica” do poder público. “O que estamos vivendo nesses casos é um conflito”, completa. As desigualdades de infraestrutura e de índices educacionais entre campo e cidade reforçam o tamanho do problema. De acordo com o Censo do Inep, o percentual de escolas com quadras de esportes na educação básica, a mais comum no meio rural, era de 48% no meio urbano e de 19,8% no campo. No comparativo de saneamento, 8,5% das unidades de ensino básico no meio rural não tinham coleta de esgoto até 2025; no meio urbano, a média é de 0,3%. Os contrastes também ficam evidentes na eficiência do ensino. Segundo números do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), consolidados pelo movimento Todos Pela Educação, o percentual de alunos com aprendizagem considerada adequada em língua portuguesa e matemática no 5º ano do ensino fundamental em 2023 foi de apenas 26,3% no meio rural. Na cidade, o índice foi de 44,3% – um número igualmente pouco satisfatório. Com isso, a lógica se retroalimenta, gerando efeitos que justificarão o fechamento dessas escolas no futuro. “O próprio poder público abandona e depois se apresenta como salvador da pátria, ao levantar propostas de modernizar a educação. Esse é o discurso. Na prática, eles não perguntam, mas apenas informam a comunidade”, frisa o professor Hage, da UFPA. Ana Helízia Almeida Bueno é uma das estudantes da escola Olympia em Goiás (GO): comunidade ainda não sabe se estrutura estará aberta no ano que vem Cristiano Borges Foi assim com a Escola Municipal Olympia Angélica Lima, localizada no Assentamento São Carlos, na cidade de Goiás (GO). A prefeitura local chegou a anunciar seu encerramento, sob a alegação de que o número de alunas era baixo e também de falta de orçamento para mantê-la. Assim, os estudantes entraram em 2026 sem saber exatamente onde iriam estudar. A medida gerou manifestações, com o apoio de universidades, e, sob pressão, o município revogou a decisão. Membros da comunidade e a direção, contudo, ainda enxergam riscos para 2027. Ao anunciar a desativação da escola, no fim do ano passado, a proposta da prefeitura era de que as crianças dos assentamentos São Carlos, Buriti Queimado e Bom Sucesso, atendidas pela escola Olympia, fossem realocadas em uma unidade em Colônia de Uvá, um distrito também no município de Goiás, mas que para alguns iria representar mais de 30 quilômetros de percurso diariamente. “Mesmo para quem mora aqui, a escola já fica longe. Tem crianças que saem das suas casas às 9h30 da manhã para chegar à aula que começa às 12h30. Se o ônibus atrasa ou se chove, é pior ainda, porque a estrada é ruim. Mudar para uma escola em outro distrito seria completamente inviável”, conta a artesã Laurena Almeida. Aos 13 anos, a filha dela, Ana Helízia, teria que andar cerca de 20 quilômetros para cursar o 7º ano na nova escola, em Colônia de Uvá, o dobro do percurso atual. Uma alternativa que Laurena e seu marido, Reinildo Bueno de Sousa, consideraram foi sair do local onde moram, mas isso implicaria deixar seus pais idosos, o que também não era viável. “Corremos atrás de abaixo-assinado, fizemos todas as movimentações que podíamos para ir contra a decisão do prefeito”, lembra a mãe. Alessandra Gonçalves é diretora da escola Olympia, em Goiás (GO): segundo ela, não há motivos para encerramento das atividades, já que seus estudantes estão entre os mais bem avaliados na região Cristiano Borges A direção do campus do município de Goiás da Universidade Federal de Goiás (UFG) saiu em defesa da escola, manifestando preocupação com a transferência dos estudantes. “O município de Goiás carrega um histórico de luta pela terra e pela reforma agrária e abriga atualmente 24 assentamentos. Nesse contexto, a Escola Municipal Olympia Angélica de Lima é estratégica para o território. Ela garante o direito à educação das crianças no próprio local onde vivem, fortalece os vínculos comunitários e contribui para a permanência digna das famílias no campo”, afirmou em nota, publicada em dezembro. Desafios para as famílias Divina Souza, diretora do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Goiás, é moradora do assentamento São Carlos e vizinha da escola. Durante as negociações com a gestão municipal, atuou ativamente para que a unidade, que existe há mais de 20 anos, continuasse aberta. “Não queriam de forma alguma atender a gente. Quando falamos que faríamos uma mobilização com muitas pessoas na sede da prefeitura, recuaram e nos atenderam. Foi então que fizemos uma grande reunião, uma grande mobilização, em que a permanência da escola foi anunciada”, revela. O ano letivo de 2026 estava garantido, mas o que a comunidade não imaginava é que ocorreriam mudanças estruturais na unidade. Houve corte de funcionários e, com isso, alunos do ensino fundamental II que tinham classes separadas passaram a ser agrupados na mesma sala. Ao todo, a unidade atende até 70 alunos. Outro corte foi aplicado no transporte escolar. Até o ano passado, o deslocamento incluía transporte terceirizado, mas passou a ser realizado somente com veículos da prefeitura. Os pais, então, recorreram a medidas judiciais para contestar a precarização do deslocamento e garantir a permanência da instituição. Isaac Ribeiro é líder comunitário e luta pela reabertura da escola onde foi alfabetizado, no interior de São João Del Rei (MG) Thiago de Jesus A advogada Vanuce Pereira Diniz, que atende o caso voluntariamente, afirma que foi feita uma representação no Ministério Público pedindo a garantia de que a escola seja mantida. Caso um novo fechamento seja anunciado para 2027, ela ressalta que está preparada para recorrer juridicamente mais uma vez. Para a diretora da escola Olympia, Alessandra Gonçalves, não há sentido para o fim da unidade, uma vez que seus alunos já conquistaram diversas premiações e estão entre os mais bem avaliados entre as unidades da região. “Já desenvolvemos diversos projetos, tivemos um representante na COP30 (Conferência do Clima)”, cita. No entanto, ela acredita que ainda há risco de encerramento, uma vez que o poder público não deu garantias que indiquem se o funcionamento vai continuar ou não. Procurada pela Globo Rural, a prefeitura da cidade de Goiás não atendeu a um pedido de entrevista e informou, por meio da assessoria de imprensa, que “a escola está aberta e vai continuar”. Em Valo Novo (MG), a promessa da prefeitura é de que a escola seja reaberta já no início do próximo ano, cumprindo uma promessa de campanha. Legislação Na esfera pública federal, a Comissão de Educação do Senado aprovou, em maio deste ano, o projeto de lei (PL) 3.091/2024, que defende a aplicação de exigências maiores para o fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas. Pelo texto, de autoria do ex-senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), o encerramento das unidades dependerá de manifestação do órgão responsável pelo sistema de ensino, com base em justificativas e um diagnóstico apresentados pelas secretarias de Educação dos estados. Após parecer favorável no Senado, o projeto seguiu para a Câmara dos Deputados. Se a justificativa e o diagnóstico indicarem a necessidade de encerramento das atividades, haverá o prazo de um ano, com apoio do órgão gestor da educação, para buscar soluções para os problemas apontados. Passado esse período, será feita uma nova avaliação e, se ainda assim a medida for considerada necessária, o processo deverá incluir análise dos impactos da desativação e manifestação de alunos, professores e responsáveis. A mesma análise deverá contemplar a possibilidade de remanejamento dos estudantes matriculados para uma nova unidade, a função social da escola e a distância a ser percorrida pelos alunos realocados, entre outros aspectos. No texto do PL, o ex-senador lembra que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) já estabelece regras e a necessidade de justificativas para esse processo, inclusive com diagnóstico do impacto e manifestação da comunidade escolar. “Essa norma, no entanto, não tem sido capaz de conter o danoso processo”, diz o autor. Em vans oferecidas pela predeitura de São João del Rei (MG), Gustavo Guimarães enfrenta entre quatro e cinco horas de estradas para ir e voltar da escola Thiago de Jesus Procurado pela reportagem, o Ministério da Educação não comentou o assunto, alegando período de defeso eleitoral. A principal medida do governo federal relacionada ao tema é a Política Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas (Novo Pronacampo), lançada em julho de 2025. Trata-se de um conjunto de ações de apoio aos sistemas de ensino, em regime de colaboração com estados e municípios. A adesão ao programa é voluntária e retoma uma política lançada em 2013, mas enfraquecida entre os anos 2019 e 2022, após a extinção de órgãos como a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), instância responsável por coordenar o programa dentro do Ministério da Educação, e da Secretaria de Articulação com os Sistemas de Ensino (Sase). Na avaliação da professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e integrante da Rede Mineira de Educação no Campo, Nágela Aparecida Brandão, a principal mudança do novo modelo foi a previsão da participação da sociedade civil por meio de agentes territoriais ligados a essas comunidades e também aos órgãos estaduais de educação. “Estamos construindo um novo momento da educação no campo, visando a iniciativas concretas”, afirma. Apesar de otimista com a nova política, ela reconhece que o sucesso do Novo Pronacampo depende de um “trabalho de formiguinha” que ainda está no início. Na opinião de Mônica Molina, da UnB, a reedição do Pronacampo é um passo importante, mas exige atenção na sua aplicação por estados e municípios. “É importante que as políticas sejam ampliadas, que tenham mais financiamento e uma execução proporcional à magnitude e à gravidade do problema”, constata. Outro eixo do Novo Pronacampo é o fomento a tecnologias e materiais pedagógicos específicos para escolas multisseriadas, que agrupam alunos de diferentes anos letivos na mesma classe. Comum na zona rural, o modelo é utilizado para formar turmas quando há poucos alunos em diferentes níveis de aprendizado e tem sido uma das principais justificativas para o fechamento de salas de aula no campo. Em Sergipe, o modelo chegou a ser alvo de críticas e auditorias do Tribunal de Contas do Estado (TCE). A Secretaria de Estado da Educação informou que a rede pública local mantém 319 unidades de ensino distribuídas em 75 municípios, sendo 149 em tempo integral. Apenas uma é considerada multisseriada: a Escola Rural Educador Paulo Freire – Povoado Quissamã – Nossa Senhora do Socorro. Na avaliação da diretora da Roda Educativa, Tereza Perez, a multisseriação é “malvista por quem não entende de educação” e representa uma potência em termos de práticas pedagógicas. “Tudo que a gente deseja na educação pode acontecer muito bem nessa potência que já está dada, que é lidar com essa heterogeneidade de estudantes com diferentes aprendizagens”, conclui. Salomão Hage, da UFPA, ressalta que a multissérie é apenas uma forma de organizar o ensino em contextos em que há poucos alunos, inclusive autorizada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Como exemplo, ele cita modelos pedagógicos conceituados que adotam o modelo multisseriado, como a pedagogia Waldorf, de origem alemã, e a Montessoriana, de origem italiana. “Nem por isso elas são precárias. Pelo contrário, são consideradas de elite e são muito prestigiadas”, salienta o pesquisador. Exemplos positivos Na Escola Baniwa Kalipana, a multisseriação nem de longe acarretou precariedade no ensino. A unidade, localizada em São Gabriel da Cachoeira (AM), foi uma das dez finalistas do prêmio World's Best School Prizes 2026, criado pela organização internacional T4 Education e conhecido como a Copa do Mundo das Escolas. A conquista foi na categoria Ação Ambiental. Duas salas de aula comportam cerca de 70 alunos com origem em uma aldeia com 25 famílias. No período matutino, a turma de educação infantil ocupa uma das salas de aula, enquanto o ensino fundamental I permanece na outra. No turno vespertino, os alunos do ensino fundamental II são divididos em duas turmas, sendo 6º e 7º anos numa sala de aula, e 8º e 9º anos, em outra. Dzoodzo Baniwa é presidente da Associação Escola Kalipana, em São Gabriel da Cachoeira (AM). Neste ano, a instituição conquistou reconhecimento como uma das dez melhores do mundo na categoria Ação Ambiental do World´s Best School Prizes Divulgação Na infraestrutura, não há fornecimento de energia elétrica, e pequenos sistemas fotovoltaicos foram instalados para suprir as necessidades locais. A alimentação é fornecida com verba municipal, mas as entregas são feitas somente a cada seis meses, assim como os materiais pedagógicos, dada a dificuldade de acesso. “A escola foi implantada na aldeia em 1994, ofertando a educação infantil e uma parte do ensino fundamental. Em 2010, implementamos a segunda parte do ensino fundamental, como é até hoje”, lembra Dzoodzo Baniwa, presidente da Associação Escola Kalipana, responsável pela gestão da unidade educacional. Licenciado em física, mestre em ciências ambientais e pesquisador indígena, Dzoodzo estudou e foi professor da Kalipana antes de assumir a gestão. Além da área acadêmica, também é assessor da Secretaria Municipal da Educação para Assuntos Indígenas da cidade de São Gabriel. “Sou resultado da educação escolar indígena”, ressalta. A matriz pedagógica tem como base o Sistema Agrícola Káali, desenvolvido pelo povo baniwa-koripako, que agrega saberes, práticas cultivo da mandioca, por exemplo, é um elemento central do sistema. Na escola, existem espaços de trilhas para conhecimento prático de plantas medicinais, espécies nativas, informações sobre a maniva da mandioca (muda ou estaca utilizada para plantio), entre outros conceitos do território. O espaço também é palco de eventos comunitários. Nesse contexto, surgiram projetos sobre o futuro dos cultivos em um planeta cada vez mais quente e em uma região dependente dos rios. “Fizemos uma escuta ativa, para entender como podemos construir com os alunos e trazer respostas que possam contribuir com o desafio das mudanças climáticas. É nesse sentido que discutimos educação”, pontua Dzoodzo. Além da sala de aula No sertão de Pernambuco, um projeto que nasceu da tentativa de melhorar as condições da educação básica hoje se traduz em construção de conhecimento tecnológico. A Escola Professora Olindina Roriz Dantas, fundada em 2017, oferece ensino gratuito a quase 400 alunos da zona rural de Belém do São Francisco (PE) e é mantida pela Agrodan, maior produtora e exportadora de mangas do Brasil. “Em 2014, vendo que a empresa estava crescendo, percebi que não tinha sentido existirem adultos analfabetos entre os funcionários e na região. Pensei: ‘vou erradicar o analfabetismo entre os adultos daqui’”, conta Paulo Dantas, diretor-presidente da empresa. Escola Professora Olinda Roriz Dantas na zona rural de Belém do São Francisco (PE): quase 400 alunos são atendidos gratuitamente no local Rafael Vieira/Trilux/CNA A construção da escola era para ser concluída, inicialmente, por parcerias com outras companhias. Dantas, que foi professor por 40 anos, chegou a apresentar o projeto a clientes durante uma feira em Berlim, em meados de 2016, e não teve sucesso na captação. “A escola custava 600.000 euros, em torno de R$ 2 milhões na época. Muita gente elogiou, mas ninguém se ofereceu para entrar, e aí caiu minha ficha: ‘Se eu não bancar, não vai sair do papel’.” E assim o fez. O executivo comunicou aos demais sócios – seus irmãos – que faria um empréstimo para custear o projeto. Alguns meses após o início da construção, clientes europeus da companhia viram o processo tomar forma e decidiram contribuir com doações, que somaram mais de R$ 800.000, totalizando um orçamento de R$ 2,8 milhões. Atualmente, as despesas da escola giram em torno de R$ 6 milhões por ano e são custeadas a partir dos lucros da Agrodan. Paulo Dantas, diretor-presidente da Agrodan e idealizador da Escola Professora Olindina Roriz Dantas Rafael Vieira/Trilux/CNA O funcionamento da escola teve início com cursos desde o maternal até o 5º ano do ensino fundamental, com a proposta de aumentar a oferta de turmas a cada ano. Assim, em 2025, foi concluída a primeira turma do 3º ano do ensino médio. A partir de 3 anos de idade, todos os alunos têm aulas de inglês, informática, robótica, música e esportes. No ensino médio, há também conhecimentos em programação e inteligência artificial. Por meio de uma cooperação com o governo de Pernambuco, a escola passou a fornecer alfabetização e ensino fundamental I e II para adultos. E, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), são oferecidas turmas de curso técnico em fruticultura e agricultura. “Pensava em continuar crescendo até a área de TI (tecnologia da informação), para ser uma faculdade, mas decidi que vou focar até o ensino médio e técnico. A minha missão é abrir portas para essa juventude”, define Dantas. Entre promessas de reabertura, políticas públicas e exemplos que desafiam a lógica do abandono, fica uma certeza: garantir a educação no campo é, também, assegurar que o direito de aprender não dependa do local onde uma criança nasceu.