Apesar de resilientes, plantas do Cerrado dependem de polinizadores para atingir o sucesso reprodutivo
Estudo acompanhou, ao longo de dois anos, treze tipos de arbustos canela-de-ema, espécies com alta taxa de endemismo e adaptadas ao fogo. Resultados apontaram que indivíduos que apresentaram os frutos e as sementes mais vigorosas foram aqueles que receberam visitas de beija-flores e abelhas.
A Serra do Cipó, no estado de Minas Gerais, atrai turistas de todo o Brasil interessados em conhecer suas cachoeiras com poços cristalinos e realizar trilhas em meio ao cerrado. Mas não são apenas as quedas d’água que chamam a atenção na região: a biodiversidade local também é riquíssima, com mais de 1500 espécies de plantas já catalogadas nos arredores. Entre as espécies que compõem a vegetação da Serra do Cipó, destacam-se representantes da família Velloziaceae, especialmente do gênero Vellozia, popularmente conhecidos como canelas-de-ema.
A família Velloziaceae compreende cerca de 265 espécies endêmicas da América do Sul, sendo 85% ocorrendo em campos rupestres, áreas que combinam afloramentos rochosos, solos com poucos nutrientes, sazonalidade climática, isolamento geográfico e áreas de altitude. Essa combinação específica colabora para que 75% das espécies sejam endêmicas. Isso quer dizer que três quartos das plantas da família Velloziaceae existem apenas em sua região de ocorrência. Portanto, as canelas-de-ema que os turistas observam nos campos da Chapada Diamantina, no sertão da Bahia, não são as mesmas encontradas na Serra do Cipó mineira ou no cerrado goiano, por exemplo.
Esse isolamento acaba representando um risco para esses grupos, uma vez que um incêndio intenso na vegetação local ou mesmo a mudança no uso do solo de uma vasta área pode resultar na perda de toda uma espécie. Ao mesmo tempo, também desperta a curiosidade de cientistas. Um estudo conduzido pelas pesquisadoras Irene Gélvez-Zúñiga e Patricia Morellato, ambas associadas ao CBioClima (Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima) e ao Instituto de Biociências da Unesp, no câmpus de Rio Claro, buscou aprofundar o entendimento da ciência sobre o gênero Vellozia, no intuito de oferecer uma base científica para a conservação dessas espécies endêmicas.
Durante dois anos, uma equipe de pesquisadores especializados em ecologia, fenologia e biologia reprodutiva de plantas e incluiu colegas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Nacional de Córdoba, da Argentina, acompanhou populações de Vellozia para investigar os principais padrões de floração dessas plantas e também a importância dos polinizadores para a sua reprodução.
O trabalho, financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foi publicado na revista Annals of Botany e recebeu apoio logístico do Parque Nacional da Serra do Cipó, do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e de pousadas da região, o que revela a preocupação e envolvimento da comunidade nos estudos envolvendo as espécies locais.
Etapas de construção da pesquisa
Para o estudo, a equipe analisou 13 espécies de canela-de-ema no Parque Nacional da Serra do Cipó e na Reserva Vellozia, localizada na porção sul da Serra do Espinhaço (MG). Dessas espécies, três são classificadas como “em risco de extinção”, uma como “quase ameaçada”, uma como “baixa preocupação” e sete têm seus estados de conservação como “não avaliados”.
Gélvez-Zúñiga, autora principal do artigo, divide a metodologia do trabalho em quatro partes: a primeira envolveu viagens quinzenais à campo, permitindo aos cientistas anotar a frequência em que as plantas floriam e também a intensidade dessa floração, considerada em uma escala de zero a um. Com isso, a equipe conseguiu avaliar a intensidade da floração das diferentes espécies, quais florescem ao mesmo tempo, quais florescem em períodos muito distintos, entre outros fatores.

Pesquisadora do CBioClima/Unesp coleta Vellozia nos campos rupestres de Minas Gerais. (Crédito: CBioClima/Unesp)
A segunda parte envolveu as polinizações. “Basicamente, o que fizemos foi acompanhar a formação das flores desde o botão e isolá-las em saquinhos de organza para evitar a visita de polinizadores e outros agentes”, explica a cientista. Dessa forma, um grupo de flores ficou exposto aos visitantes, outro foi polinizado manualmente pelos pesquisadores e o terceiro ficou restrito, com acesso impedido dos animais. Depois, a equipe quantificou quantas flores produziam frutos, se esses frutos produziam sementes e se essas sementes germinavam ou não.
A terceira etapa do processo ocorreu já dentro dos laboratórios dos pesquisadores. “Nós juntamos os grupos de sementes formadas em cada tipo de polinização e levamos para germinar em laboratório. Essa é uma abordagem que geralmente não costuma ser feita em outros projetos de pesquisa porque demanda muito tempo e paciência. Mas ela é importante pois mostra o ciclo completo de reprodução da planta”, relata Gélvez-Zúñiga sobre a penúltima etapa do trabalho.
A quarta parte da pesquisa entra como um extra. Ao longo do período de acompanhamento das plantas, os pesquisadores instalaram câmeras que, acionadas pelo movimento no entorno, detectavam e registravam a presença de visitantes. “Isso nos permitiu ver o comportamento dos polinizadores, a sua frequência, o horário e quais as espécies visitadas”, explica a pesquisadora.
Beija-flores e abelhas são essenciais para a reprodução
Já era de conhecimento dos cientistas que as plantas canela-de-ema costumam apresentar floração massiva, em grandes quantidades dentro de um período curto de tempo. Isso foi corroborado no estudo para várias espécies, mas os pesquisadores observaram também uma segunda estratégia de floração que consistia na produção de pequenas quantidades de flores ao longo dos meses de transição entre chuva e seca.
Outra constatação dos pesquisadores foi que algumas espécies, como a Vellozia alata e Vellozia caruncularis, têm suas florações estimuladas pelo fogo. Os incêndios naturais ou antrópicos, causados pela ação humana, são recorrentes no bioma Cerrado e essas duas espécies apresentaram produção de flores poucas semanas após a ocorrência de queimadas na região, o que indica uma adaptação ecológica a esses eventos.

Beija-flores e abelhas representam os principais polinizadores de flores da família Vellozia no cerrado brasileiro. (Crédito: CBioClima/Unesp)
Um dos principais resultados do estudo foi demonstrar a importância da atividade dos polinizadores para a reprodução bem-sucedida da canela-de-ema. Sete das 11 espécies avaliadas nos experimentos reprodutivos não produziram frutos ou sementes quando os polinizadores foram excluídos. Em alguns casos, havia frutos, mas suas sementes apresentavam baixa qualidade ou não germinavam, o que mostra que esse não deve ser o único parâmetro para julgar o sucesso reprodutivo das plantas.
A produção de sementes saudáveis é fundamental para a viabilidade de novos indivíduos e para a manutenção da diversidade genética das populações. “As plantas do gênero Vellozia transitam um pouco por esse espectro da autonomia para a reprodução. Ainda assim, elas encontram seu maior resultado quando são polinizadas pelos animais”, conclui Gélvez-Zúñiga. Os principais polinizadores registrados no estudo foram os beija-flores Colibri serrirostris e Chlorostilbon lucidus e abelhas do gênero Trigona – abelhas sem ferrão do grupo Meliponini. A abelha-africanizada (Apis mellifera) também foi observada visitando diversas espécies.
“Os nossos resultados sobre a dependência de polinizadores, desafios reprodutivos e relação da floração com potenciais mudanças ambientais podem colaborar para o entendimento dos riscos reais para as espécies de canela-de-ema, construindo ferramentas para que os tomadores de decisão usem e cataloguem as plantas ainda não avaliadas, garantindo assim a manutenção delas”, orienta a pesquisadora.
Gélvez-Zúñiga explica que essas plantas ocorrem em habitats montanhosos, rupestres e áridos, o que pode dar a impressão de que são ambientes inférteis ou já degradados. Segundo a pesquisadora, esse sentimento pode abrir precedentes para a ocupação do espaço pela produção pecuária ou pela indústria extrativista, ações que costumam trazer graves impactos à qualidade do solo ou à biodiversidade.
Nesse sentido, explica a pesquisadora, realizar o mapeamento da ocorrência das espécies é uma forma de aprofundar o conhecimento sobre sua ecologia, os serviços ambientais prestados e, dessa forma, conscientizar sobre a importância da canela-de-ema nos campos rupestres. “Essas espécies também estão alimentando a fauna, sendo positivas para o turismo de natureza e também para a produção de frutos para outros organismos. Se a gente mantiver populações viáveis de beija-flores e abelhas, por exemplo, iremos beneficiar não só as canelas-de-ema, mas várias outras espécies, mantendo os ecossistemas saudáveis e resilientes”, finaliza a autora.
Fonte: UNESP / Carolina Fioratti