Indústria do couro busca aumentar valor agregado da produção brasileira

A indústria brasileira do couro busca avançar no processamento da matéria-prima para aumentar o valor agregado da produção e ampliar a participação do país em mercados que remuneram produtos acabados.
O movimento envolve investimentos em tecnologia, qualificação da mão de obra e aprimoramento dos processos industriais, além de uma maior integração entre campo e indústria.
O Brasil possui um dos maiores rebanhos comerciais do mundo, o que garante oferta de matéria-prima para a cadeia. No entanto, o volume de couros disponível não é suficiente para assegurar competitividade. A estrutura dos curtumes, a mão de obra especializada e a experiência acumulada ao longo de décadas também são fatores que contribuem para a posição brasileira no mercado internacional.
Um dos desafios está justamente em avançar nas etapas de processamento. Atualmente, uma parcela significativa dos couros brasileiros é exportada no estágio conhecido como Wet Blue, em que o produto já passou por processos iniciais de curtimento, mas ainda não está acabado para chegar ao consumidor final.
A estratégia da indústria é ampliar o processamento dentro do país e exportar produtos com maior valor agregado.
A lógica é reduzir a exportação de produtos de menor valor agregado e ampliar a participação brasileira nas etapas que concentram maior geração de receita.
Tecnologia se une ao trabalho especializado
A transformação do couro ainda depende de conhecimento técnico e avaliação humana. Diferentemente de materiais industriais padronizados, cada pele apresenta características próprias e pode trazer marcas, riscos e outras particularidades que precisam ser identificadas durante o processamento.
Esse conhecimento, construído ao longo de gerações, começa a dividir espaço com novas tecnologias. A inteligência artificial já pode ser utilizada para identificar digitalmente características da pele, como riscos, marcas de fogo e sinais associados à presença de carrapatos.
No entanto, a presença humana ainda é necessária para ajudar a entregar uma peça tão bem trabalhada quanto o couro.
“Cada couro é um couro, não é similar a um rolo de plástico que vai ser tudo igual. Então, você precisa dessa atenção humana, desse caráter artesanal, do toque, da sensibilidade humana, ao mesmo tempo se comunicando, se conversando com máquinas modernas”, destacou o diretor de sustentabilidade da JBS Couros, Kim Sena.
A expectativa é que essas ferramentas aumentem a capacidade de classificação e identificação dos couros e contribuam para direcionar cada matéria-prima ao mercado mais adequado.
A combinação entre experiência dos profissionais e automação também faz parte da estratégia para elevar a qualidade do produto e atender às diferentes exigências dos compradores.
Sustentabilidade e aproveitamento da matéria-prima
Outro ponto destacado pela indústria é o aproveitamento integral da cadeia bovina. Como o couro é um subproduto da produção de carne, o processamento da pele permite dar outro destino a uma matéria-prima que seria descartada caso não fosse aproveitada.
A indústria defende que o aproveitamento do couro amplia o uso dos recursos provenientes da atividade pecuária e pode gerar valor adicional para a cadeia.
Na etapa industrial, a busca por eficiência também envolve o uso adequado de produtos químicos e a redução do consumo de recursos. A proposta é produzir couros que atendam aos padrões exigidos pelos mercados e, ao mesmo tempo, melhorar a eficiência dos processos.
Produção em larga escala
A dimensão da cadeia pode ser observada dentro dos próprios curtumes. Uma das fábricas apresentadas na reportagem produz cerca de 120 mil couros por mês, volume que coloca a unidade entre as operações de grande escala do setor.
Para a indústria, entretanto, aumentar a produção não é o único objetivo. O desafio é fazer com que a qualidade seja reconhecida e remunerada pelos mercados.