Após anos de diálogo, Frimesa anuncia adoção do sistema "Cobre e Solta" para novos projetos e avança no bem-estar de porcas reprodutoras
Compromisso é parte de uma das mudanças mais relevantes da suinocultura brasileira nos últimos anos, reforçando uma tendência de modernização do setor.
São Paulo, junho de 2026 – A Frimesa, uma das maiores cooperativas agroindustriais do Brasil e uma das principais produtoras de carne suína do país, anunciou uma importante evolução em sua política de bem-estar animal ao confirmar que, a partir de 2030, todos os novos projetos destinados às porcas reprodutoras (chamadas de matrizes suínas) passarão a utilizar o sistema "Cobre e Solta" como padrão construtivo e operacional.
A medida representa um avanço significativo para a produção animal no Brasil - que atualmente é o 4º maior produtor e 3º maior exportador de carne suína do mundo - ao longo da implementação dos novos projetos.
O anúncio também simboliza o resultado de um processo de construção iniciado anos atrás entre a empresa e a Sinergia Animal. Desde 2021, representantes da organização apresentam estudos científicos, discutem experiências nacionais e internacionais e avaliam alternativas para ampliar os padrões de bem-estar animal da companhia.
"Mudanças estruturais dessa magnitude não acontecem da noite para o dia. Elas são resultado de anos de diálogo técnico, construção de confiança e compromisso com soluções que conciliam competitividade e bem-estar animal. O anúncio da Frimesa demonstra que é possível avançar quando diferentes atores trabalham em conjunto", comenta Cristina Diniz, diretora geral da Sinergia Animal no Brasil.
Embora celebre o avanço, a organização ressalta que a evolução da cadeia produtiva é um processo contínuo e que a implementação dos compromissos anunciados será fundamental para consolidar essa transformação.
Uma decisão que acompanha a evolução da suinocultura
Durante décadas, o alojamento individual de porcas gestantes foi amplamente utilizado pela indústria suinícola mundial. Nesse sistema, conhecido como gaiola de gestação, porcas reprodutoras permanecem confinadas individualmente durante grande parte da gravidez - que dura em média 3 meses -, ciclo após ciclo, em espaços semelhantes a uma jaula, que restringem significativamente sua movimentação, resultando em uma vida inteira de sofrimento. Nesses espaços, que mal ultrapassam o tamanho de seus corpos, elas não conseguem se virar ou deitar de lado de forma confortável. Esse confinamento extremo impõe estresse físico e psicológico constante.
Foi nesse contexto que surgiu a adoção crescente do chamado sistema "Cobre e Solta". Nesse modelo, as porcas permanecem alojadas nessas celas individuais por no máximo 7 dias, que corresponde ao período inicial da cobertura e confirmação da gestação. Em seguida, são transferidas para baias coletivas, onde podem caminhar, socializar, descansar livremente e expressar comportamentos naturais durante a maior parte da gestação.
Diversos estudos internacionais demonstram que, quando corretamente manejados, esses sistemas conciliam elevados índices produtivos com ganhos importantes para o bem-estar animal, reduzindo comportamentos associados ao estresse crônico e proporcionando melhores condições fisiológicas e comportamentais.
Além dos benefícios para os animais, a modernização dos sistemas de alojamento passou a representar uma vantagem competitiva para empresas exportadoras, diante das crescentes exigências de consumidores, investidores, varejistas e compradores internacionais.
Uma tendência global
A mudança anunciada pela Frimesa acompanha um movimento observado em diversos mercados ao redor do mundo. Na União Europeia, o uso de sistemas coletivos tornou-se predominante após mudanças regulatórias implementadas ao longo das últimas décadas.
Nos Estados Unidos, diversos estados aprovaram legislações restringindo sistemas de confinamento extremo para animais de produção, enquanto grandes redes varejistas e empresas de alimentos passaram a exigir padrões mais elevados de bem-estar animal em suas cadeias de fornecimento.
No Brasil, a publicação da Instrução Normativa nº 113/2020, do Ministério da Agricultura e Pecuária, estabeleceu diretrizes para a modernização gradual dos sistemas de alojamento de matrizes suínas, incentivando a transição para modelos coletivos e estabelecendo parâmetros técnicos para sua implementação.
Ao mesmo tempo, diversas empresas brasileiras passaram a anunciar compromissos próprios, antecipando tendências regulatórias e respondendo às expectativas crescentes do mercado e da sociedade civil.
Hoje, companhias como MBRF, JBS, Pamplona e Ecofrigo já utilizam o sistema "Cobre e Solta" como padrão para novos projetos, demonstrando que a adoção desse modelo tornou-se uma importante referência para o setor. Com o novo anúncio, a Frimesa passa a integrar esse movimento de modernização da suinocultura nacional.
Um processo construído ao longo de anos
A decisão anunciada pela Frimesa é resultado de um processo de diálogo que se estendeu por vários anos. Em março de 2024, representantes da empresa e da Sinergia Animal realizaram uma das primeiras reuniões formais para discutir políticas de bem-estar animal.
Na ocasião, a organização apresentou preocupações relacionadas à retirada do compromisso anteriormente divulgado pela empresa sobre a transição para alojamento coletivo das matrizes, além de propor novos compromissos alinhados às melhores práticas internacionais. A reunião também abriu espaço para uma agenda permanente de diálogo.
Nos meses seguintes, novas conversas abordaram diferentes aspectos do manejo dos animais, incluindo imunocastração, eliminação gradual de procedimentos dolorosos, enriquecimento ambiental, identificação dos animais e alternativas para o alojamento coletivo das matrizes.
Paralelamente, a Sinergia Animal apresentou estudos científicos, análises de mercado e exemplos de implementação bem-sucedida em outras empresas brasileiras, reforçando que o investimento em sistemas coletivos representa não apenas uma melhoria para os animais, mas também uma estratégia de competitividade de longo prazo.
O papel do diálogo
Para a Sinergia Animal, o anúncio também demonstra a importância do diálogo institucional como ferramenta de transformação. Ao longo dos últimos anos, organizações da sociedade civil, empresas, produtores, pesquisadores e consumidores passaram a construir espaços permanentes de discussão sobre sustentabilidade na produção animal.
Embora ainda existam diferenças de visão, experiências como a da Frimesa mostram que é possível construir soluções graduais, tecnicamente fundamentadas e economicamente viáveis. A organização destaca que mudanças estruturais em cadeias produtivas complexas exigem investimentos e adaptações das propriedades, capacitação técnica, além de planejamento de longo prazo, tornando essencial a cooperação entre todos os envolvidos.
Ainda há desafios
Apesar de representar uma importante conquista, a Sinergia Animal ressalta que o anúncio não encerra o processo de evolução das políticas de bem-estar animal na empresa. O compromisso divulgado refere-se aos novos projetos destinados às matrizes suínas, com implementação prevista a partir de 2030.
A organização considera que a transparência sobre a evolução das obras, o acompanhamento público da implementação e a continuidade do diálogo serão fundamentais para garantir que os benefícios previstos sejam efetivamente alcançados. Também destaca que o setor brasileiro continua passando por um amplo processo de modernização, criando oportunidades para novos avanços relacionados ao manejo, à redução de procedimentos dolorosos, ao uso não profilático de antimicrobianos, e à melhoria contínua das condições oferecidas aos animais.
Um sinal para todo o setor
Para especialistas em sustentabilidade corporativa, compromissos públicos possuem efeito que vai além da empresa que os anuncia. Grandes cooperativas e frigoríficos influenciam centenas de produtores integrados, fornecedores de genética, empresas de equipamentos, instituições financeiras e compradores nacionais e internacionais.
Ao incorporar novos padrões de bem-estar animal em seus investimentos futuros, empresas desse porte ajudam a acelerar a disseminação de tecnologias, estimulam inovação e contribuem para elevar o padrão de toda a cadeia produtiva brasileira. Nesse contexto, o anúncio da Frimesa representa não apenas uma conquista para milhares de animais, mas também um importante sinal de que a agenda de bem-estar animal vem se consolidando como um dos pilares da sustentabilidade no agronegócio.

Sobre a Sinergia Animal
A Sinergia Animal é uma organização internacional que atua para abolir as piores práticas de manejo animal pela indústria de alimentos. Presente em diversos países da América Latina e da Ásia, desenvolve campanhas corporativas, pesquisas, diálogo institucional e iniciativas de conscientização que promovem sistemas alimentares mais compassivos, sustentáveis e alinhados às crescentes expectativas da sociedade.
Fonte: De Propósito