Rastreabilidade do gado ganha força em Mato Grosso com novas exigências ambientais da Europa

30/09/2026 - 16:00
Rastreabilidade do gado ganha força em Mato Grosso com novas exigências ambientais da Europa
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Gado nelore em confinamento

A crescente cobrança por transparência e sustentabilidade na produção agropecuária está colocando a rastreabilidade do rebanho bovino no centro das discussões do agronegócio brasileiro. Em Mato Grosso, maior produtor de bovinos do país e um dos principais exportadores de carne, a integração entre bases de dados públicas surge como alternativa rápida e de baixo custo para atender às novas exigências dos mercados internacionais.

Um estudo divulgado pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura destaca que o cruzamento das informações do Cadastro Ambiental Rural (CAR) com os registros da Guia de Trânsito Animal (GTA) pode representar um avanço importante na rastreabilidade socioambiental da pecuária nacional.

A iniciativa ganha relevância em um momento em que compradores internacionais, instituições financeiras, investidores e órgãos de fiscalização ampliam a cobrança por comprovações de origem sustentável dos produtos agropecuários.

Mato Grosso no centro das exigências globais

A discussão se intensifica diante da proximidade da entrada em vigor do Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR), conjunto de regras criado pela União Europeia para impedir a entrada de produtos associados ao desmatamento em sua cadeia de consumo.

Embora a suspensão temporária das exportações brasileiras de carne bovina para a União Europeia esteja relacionada a questões sanitárias envolvendo o uso de antimicrobianos, especialistas alertam que as exigências ambientais deverão ganhar ainda mais peso nos próximos anos.

Para Mato Grosso, que concentra um dos maiores rebanhos bovinos do mundo e possui forte participação no comércio internacional de carne, a adaptação aos novos critérios pode ser decisiva para manter mercados e ampliar oportunidades de negócios.

Integração de dados pode acelerar rastreabilidade

Segundo o levantamento, o Brasil já possui uma grande quantidade de informações públicas capazes de auxiliar no monitoramento da cadeia pecuária.

O CAR reúne dados territoriais das propriedades rurais, enquanto a GTA registra a movimentação dos animais entre fazendas, frigoríficos e outros destinos.

A combinação dessas bases permitiria acompanhar o deslocamento dos rebanhos e verificar se os animais passaram por áreas com pendências ambientais ou associadas ao desmatamento ilegal.

Para Fernando Sampaio, colíder da Força-Tarefa de Rastreabilidade e Transparência da Coalizão Brasil, o desafio atual não está na criação de novas ferramentas, mas na integração dos sistemas já existentes.

“O Brasil produz uma enorme quantidade de dados de qualidade. O grande desafio é conectar essas informações de forma eficiente, respeitando a segurança jurídica e a legislação de proteção de dados”, avalia.

Oito estados analisados

O estudo avaliou a situação de oito estados considerados estratégicos para a pecuária nacional:

  • Mato Grosso
  • Mato Grosso do Sul
  • Goiás
  • Minas Gerais
  • Pará
  • Rondônia
  • São Paulo
  • Tocantins

A análise concluiu que todos já possuem sistemas eletrônicos de emissão da GTA e acesso às bases do CAR, demonstrando que o principal obstáculo não é tecnológico.

Os desafios estão relacionados principalmente à regulamentação e à articulação institucional necessária para permitir que as informações conversem entre si de maneira mais eficiente.

Pará é referência nacional

Entre os estados analisados, o Pará aparece como o caso mais avançado.

Lá, a emissão da GTA depende da regularidade do Cadastro Ambiental Rural da propriedade de origem dos animais. Na prática, isso significa que produtores com pendências ambientais podem enfrentar restrições para movimentar seus rebanhos.

Nos demais estados, incluindo Mato Grosso, a vinculação entre os sistemas ocorre principalmente por consultas técnicas e cruzamentos de informações, sem impedir diretamente a emissão das guias de transporte.

Pressão do mercado acelera mudanças

A pesquisa destaca que a rastreabilidade individual dos bovinos prevista pelo Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB) deverá ser implantada gradualmente até 2032.

No entanto, as exigências do mercado internacional exigem respostas mais rápidas.

Nesse cenário, a chamada rastreabilidade por lote — baseada na integração entre CAR e GTA — surge como uma solução intermediária capaz de oferecer mais transparência enquanto o sistema nacional completo não é concluído.

Oportunidades para o agronegócio mato-grossense

Especialistas avaliam que uma infraestrutura robusta de dados poderá trazer benefícios além da exportação de carne.

A integração das informações pode auxiliar no monitoramento de políticas públicas, facilitar o acesso ao crédito rural, atrair investimentos sustentáveis e fortalecer iniciativas ligadas ao mercado de carbono.

Para Mato Grosso, estado que lidera a produção agropecuária brasileira, a adoção de mecanismos de rastreabilidade cada vez mais eficientes é vista como estratégica para manter a competitividade internacional e atender às novas demandas dos consumidores globais.

À medida que os mercados ampliam as exigências por comprovação de origem e responsabilidade ambiental, a transparência na cadeia pecuária deixa de ser apenas uma vantagem competitiva e passa a ser um requisito para permanência nos principais destinos de exportação.